21 de dezembro de 2008
O discurso é o mesmo, repetido como um texto padronizado por ministros, por integrantes do Fórum do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD) e pelo presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Daniel Slaviero: “Ao completar um ano de implantação no País, a TV digital brasileira deverá encerrar 2008 com cobertura capaz de alcançar cerca de 40 milhões de pessoas”.
É fantástico. Pelo mesmo raciocínio, um satélite que estivesse hoje difundindo programas de TV digital para todo o País cobriria a totalidade da população brasileira, mesmo que apenas 5 em cada mil telespectadores recebessem o sinal da TV digital. Sim, leitor, esse é o número que tem relevância, ao se avaliar a expansão da TV digital brasileira, após um ano de operação: 0,5% ou 5 em cada mil telespectadores.
Essa é a realidade objetiva que nem o governo, nem o Fórum do SBTVD, nem a Abert querem reconhecer. É compreensível que o governo, por razões políticas, não admita a existência do problema. Mas é estranho que a Abert e o Fórum fechem os olhos para a realidade e adotem o mesmo comportamento.
Segundo a Abert, o alcance atual da TV digital aberta terrestre é de apenas 645 mil pessoas (0,5% do total de telespectadores do País). Vale lembrar que o número dos assinantes de TV por assinatura que recebem imagens digitais de alta definição já alcança quase 2 milhões de assinantes, sem contar outros 2 milhões que assinam os novos serviços de IPTV e vídeo sob demanda (Video on Demand ou VoD), via rede de fibras ópticas, em São Paulo, no Rio de Janeiro e Brasília, oferecidos pelas maiores concessionárias de telefonia, hoje associadas a operadoras de TV por assinatura como NET e TVA.
Segundo Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica, essa concessionária já transmite programas de TV com imagens digitais de alta definição a 30 megabits/segundo (Mbps), em sua rede de fibra óptica, para 370 mil residências (ou 1 milhão de telespectadores) em São Paulo.
No caso da TV digital aberta, graças ao esforço exclusivo das emissoras, as transmissões já chegam a 8 capitais ou regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Cuiabá.
Em todo o mundo, a introdução da TV digital tem sido um processo lento, caro e difícil, que pode exigir até mais de uma década de transição. Nos Estados Unidos, as transmissões digitais começaram há 11 anos, sem nenhuma inauguração festiva do governo. Mesmo depois desse longo período, no entanto, ainda restam 4 milhões de domicílios de baixa renda que não dispõem de televisor nem de set-top box para recepção da TV digital. Diante da situação, o governo americano decidiu entregar a cada um desses domicílios, sem qualquer custo, um set-top box, para que a TV analógica possa ser retirada do ar daqui a 58 dias, ou seja, no dia 17 de fevereiro.
TRÊS PROBLEMAS
Seria ingenuidade esperar que a TV digital se expandisse em ritmo acelerado no Brasil. Da mesma forma, não podemos aceitar a lentidão atual. Que fazer, então? Para reverter totalmente a situação, o País precisaria superar três grandes obstáculos: o desconhecimento da nova tecnologia, o preço elevado dos equipamentos e a baixa oferta de conteúdos de qualidade em alta definição.
Com relação ao desconhecimento geral, as emissoras se dispõem, afinal, a iniciar uma campanha nacional de esclarecimento da população, sobre o que é a TV digital, suas vantagens e perspectivas futuras.
Quanto ao preço, a TV digital enfrenta a barreira do baixo poder aquisitivo da maioria da população. Os televisores digitais, mesmo com a queda expressiva e acelerada dos preços, no Brasil e no mundo, ainda estão fora do alcance de mais de 80% dos brasileiros. A situação se agrava porque o Brasil não formulou, até aqui, nenhuma política industrial que possa garantir o simples abastecimento do mercado de set-top boxes a preços razoáveis. Só bla-bla-blá.
Quanto ao terceiro problema, da insuficiência de conteúdos de qualidade em alta definição, é bom lembrar que o desapontamento dos early-adopters acaba funcionando como contrapropaganda da nova TV.
MEU DEPOIMENTO
Vendi um automóvel velho para adquirir um sistema de TV digital e de alta definição, capaz de me proporcionar o melhor resultado tanto na TV aberta quanto na TV por assinatura e no home-theater, com DVDs Blu-ray. Com base nessa experiência pessoal, posso afirmar que a tecnologia digital nipo-brasileira é excelente. Acho, entretanto, que o projeto brasileiro merece muito mais atenção, para que possa oferecer outros recursos prometidos, como interatividade, mobilidade e multiprogramação.
Diante desse quadro, só temos um pedido às entidades representativas das emissoras, ao Fórum SBTVD, ao Ministério das Comunicações e à Agência Nacional de Telecomunicações: esqueçam a bajulação, o auto-elogio e o oba-oba governamental e passem a enfrentar seriamente os problemas que impedem a decolagem da TV digital brasileira.
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