8 de novembro de 2009
Quando trabalhava como pesquisador nos Laboratórios Bell, da antiga AT&T, entre 1967 e 1970, o engenheiro, cientista e empresário brasileiro José Ellis Ripper Filho conheceu e conviveu com três ganhadores do Prêmio Nobel de Física, dois deles laureados em 2009: Willard Sterling Boyle e George Elwood Smith, criadores dos chips charge-coupled devices (CCDs), que viabilizaram as câmeras fotográficas e de vídeo digitais; e o bielo-russo Zhores Ivanovich Alferov, Nobel de Física em 2000, por sua contribuição ao desenvolvimento das heteroestruturas de semicondutor, usadas nas transmissões de alta velocidade e em optoeletrônica.
Ripper teve a rara oportunidade de conviver, interagir e aprender com esses gênios, quando eles ainda eram pouco mais que promessas de sucesso científico. Sua carreira comprova, em boa medida, os resultados positivos daquele convívio. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), hoje empresário, PhD pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), criador do primeiro computador brasileiro (chamado Zezinho), em 1961, juntamente com três outros colegas formandos do ITA, e responsável pelo desenvolvimento da primeira fibra óptica produzida no Brasil, José Ripper Filho começou a trabalhar nos famosos Bell Labs, em 1967.
Seu relacionamento com Boyle foi relativamente pequeno, por excesso de formalismo. Mas, com George Elwood Smith, que o sucedeu na chefia do laboratório, teve excelente interação de trabalho. “Nosso grande objetivo era conseguir um laser de semicondutor que funcionasse continuamente à temperatura ambiente. Meu trabalho estava principalmente focado em entender os fenômenos físicos que ocorriam no laser, principalmente, a explicação do espectro óptico e fenômenos derivados da dinâmica térmica.”
George Smith acompanhava de perto os trabalhos de pesquisas. “Embora teoricamente trabalhássemos numa área de desenvolvimento, nossa autonomia de escolher o que fazer era quase total”, lembra Ripper. Nessa época, ocorreu um problema de relacionamento com seu supervisor. Ripper considerava tecnicamente inviável uma sugestão proposta pelo diretor do laboratório. “Tentei mostrar isso ao nosso supervisor, mas ele disse preferir perseguir uma ideia errada do diretor a enfrentá-lo. Graças à interferência de George Smith, no entanto, tive a oportunidade de apresentar meus argumentos ao diretor, que se convenceu e mudou o rumo do grupo.”
COM ALFEROV
A interação entre Ripper e Zhores Alferov foi mais proveitosa do ponto de vista científico e tecnológico, a partir de 1969, numa época em que a liderança científica em laser de semicondutor, no Ocidente, era dividida entre os Laboratórios Bell e a RCA.
“Nosso problema”, conta Ripper, “era a corrente limiar (isto é, a corrente mínima para operar o laser), que era alta demais. Com isso, a junção aquecia, aumentando ainda mais a corrente limiar. Os Bell Labs e a RCA tinham desenvolvido, independentemente, um laser de heteroestrutura simples. Esta heteroestrutura criava uma barreira de potencial que confinava os elétrons, aumentando a interação com a luz”.
Com isso, reduziu-se bastante a corrente limiar, mas não o suficiente. Montando o laser num diamante (o melhor condutor de calor que existe) alcançaram o recorde de temperatura de operação contínua: menos 70°C, mas muito longe do objetivo.
“Foi nesse ponto que Alferov visitou os Bell Labs e conduziu um seminário, em que mostrou uma nova estrutura de laser (heteroestrutura dupla), que criava também uma barreira de potencial do outro lado. A corrente limiar era 10 vezes menor, isto é, um fator de 10 abaixo das nossas. Alferov não tinha uma explicação para isso. Demonstramos, depois, que essa estrutura criava um guia de onda, confinando a luz na mesma região em que eram aprisionados os portadores, otimizando assim a interação. Claramente era essa a solução. Usando a ideia do cientista soviético, poucos meses depois nosso grupo conseguia operar um laser continuamente à temperatura ambiente. Esta estrutura dupla ainda é a base dos lasers de hoje.”
Graças à visita de Alferov, os Bell Labs não só ganharam a corrida, mas deixaram a RCA em má situação, a ponto de ter de vender o negócio a preço de banana, anos mais tarde. “Por ironia, Alferov queria visitar a RCA. Mas, sua visita, naqueles tempos de guerra fria, foi vetada pelo setor de segurança da empresa, por receio de que o russo roubasse seus segredos.”
FIBRA ÓPTICA
Na mesma época (1970), a indústria americana Corning Glass demonstrou o funcionamento da primeira fibra óptica com perda relativamente baixa. “Com isso”, relembra Ripper, “ficou óbvio para nós que as comunicações ópticas eram o caminho do futuro, embora ainda tivéssemos de esperar uma década para começar sua aplicação ampla.”
Ripper retornou ao Brasil nessa época e deu início ao programa nacional de comunicações ópticas, que conferiu ao País competência nessa área equivalente à dos países mais desenvolvidos.
A amizade com Alferov permitiu que Ripper visitasse diversas vezes, a partir de 1972, o Instituto Ioffe em Leningrado (hoje São Petersburgo). Nos anos 1970, Alferov, já como vice-presidente da Academia de Ciências da União Soviética, passou mais de um mês na Unicamp. “E, curioso, os russos não permitiram que sua esposa o acompanhasse. Anos mais tarde, já na época do Gorbachov, ele voltou a Brasil.”
O último contato de Ripper com Alferov foi há cerca de 10 anos, quando participou de um seminário fechado organizado pela Academia de Ciências da Rússia para comemorar os 65 anos do cientista. “Com o processo de abertura política, tivemos nessa vez uma interação bem mais intensa e próxima com a equipe dele. E outro fato curioso: pela primeira vez fomos convidados para refeições nas casas dos pesquisadores, o que era proibido nos tempos da antiga União Soviética. E pudemos dialogar longamente com os estudantes de pós-graduação.”
Na avaliação de José Ellis Ripper Filho, apesar da posição que ocupava, Alferov era uma pessoa extremante informal de fácil interação. “Sua visita à Unicamp foi extremamente útil, colaborando bastante com nossos pesquisadores e estudantes de pós-graduação.”
AUTOBIOGRAFIA
“A vida flui surpreendentemente rápida. Parece que aconteceu há pouco tempo, quando eu compareci às homenagens a físicos notáveis, meus professores, que na minha mente pareciam bastante idosos. Agora, no entanto, eu mesmo acabo de completar 70 anos.”
Vejam a simplicidade deste trecho inicial da autobiografia de Zhores I. Alferov, que figura no site da organização do Prêmio Nobel. Link para o texto completo: (http://nobelprize.org/nobel_prizes/physics/laureates/2000/alferov-autobio.html).
Exemplo de cientista que produz para o Brasil
Poucos cientistas têm contribuído tanto para o desenvolvimento da tecnologia no Brasil nas últimas décadas quanto José Ellis Ripper Filho. Engenheiro e empresário, ele é presidente e um dos fundadores da empresa AsGa, que produz equipamentos para transmissões via fibra óptica.
Foi professor titular de Física da Universidade de Campinas (Unicamp) e tornou-se também um dos melhores exemplos bem-sucedidos de migração da sala de aula para a iniciativa privada. Formado pelo ITA na turma de 1961, antes de ingressar no mundo dos negócios, ele foi pesquisador nos Laboratórios Bell, fez doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e quando voltou ao Brasil liderou os trabalhos de desenvolvimento da fibra óptica brasileira, com apoio da Telebrás e das Universidades de Campinas e de São Paulo.
A empresa AsGa teve sua origem nos grupos de pesquisas que desenvolveram as tecnologias de comunicações por fibras ópticas e de transmissão digital, apoiados, desde 1973, pela Telebrás. Seus diretores participaram ativamente daqueles desenvolvimentos.
Fundada em 1989, a AsGa nasceu com objetivo de implantar no Brasil a fabricação de componentes optoeletrônicos, dispositivos que transformam sinais elétricos em luminosos e permitem a utilização de fibras ópticas. Localizada em Paulínia, a AsGa é uma empresa 100% nacional e parte integrante do polo tecnológico da região de Campinas.
As instalações da empresa ocupam área de 5.800 metros quadrados. Ali são gerados produtos e serviços que se destinam às grandes operadoras de telecomunicações. Seu nome vem de arseneto de gálio (AsGa), um dos semicondutores que serviram de matéria-prima para os primeiros componentes optoeletrônicos fabricados pela empresa.
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