20 de julho de 2008
Como brasileiro, estou esperando a instalação da indústria de semicondutores prometida pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa, em contrapartida à escolha do padrão de TV digital ISDB pelo Brasil. Na solenidade de assinatura do acordo Brasil-Japão sobre a TV digital, em Brasília, o presidente Lula comemorou: “O acordo que hoje assinamos com o Japão nos ajudará a recuperar esse tempo perdido na indústria de semicondutores e a avançar ainda mais na área de software”.
Na verdade, o Japão não vai instalar nenhuma fábrica por força desse acordo. Segundo o texto oficial, aquele país só se comprometeu em cooperar “com o governo do Brasil na elaboração, por parte do Brasil, de um plano estratégico para o desenvolvimento da indústria de semicondutores, com vistas a investimentos japoneses no Brasil. Este plano estratégico incluirá um pacote detalhado de políticas especialmente elaborado para atrair investimento de fabricantes de semicondutores no Brasil.”
Para o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, “essa história da indústria de semicondutores era puro blá-blá-blá”, já que o Japão não assumiu nenhum compromisso formal em implantá-la.
Qualquer estudioso sabe que o Brasil não oferece as condições mínimas para atrair as grandes empresas de microeletrônica. Falta-nos mão-de-obra altamente qualificada e abundante, estrutura tributária favorável e laboratórios de pesquisa.
E A TV DIGITAL?
A pressa populista chegou a levantar a hipótese de a estréia da TV digital em São Paulo, ocorrer na Copa do Mundo de 2006. Além da alta definição, o ministro das Comunicações deu a entender que teríamos logo interatividade, multiprogramação, internet na TV, inclusão digital, portabilidade e mobilidade, em veículos ou no celular.
Depois criou a expectativa dos set-top boxes a R$ 200, a R$ 100 e até menos, sem levar em conta que mais de 90% da população não vê qualquer razão para comprar um sintonizador para acoplar a seu televisor analógico. A rigor, o povão ignora totalmente o que é TV digital. A própria classe média ainda não compreendeu o que é nem quais são as vantagens da nova tecnologia.
Quem está frustrada é a classe A, que tem poder aquisitivo, que acreditou nas promessas mirabolantes do ministro, que investiu pesado no melhor televisor plano de 42 ou 50 polegadas, alta definição plena (Full HD ou 1.080 pixels), com sintonizador digital incorporado. Essa elite está revoltada. E com razão, porque percebe que o projeto de introdução da TV digital tem sido mal conduzido, sem muita sintonia entre governo, emissoras, universidade e indústria.
Por que não dizer toda a verdade à população, para que ela se prepare para a longa transição? Por que não reconhecer que a adoção de qualquer nova tecnologia exige longo tempo de maturação e produção em larga escala? Assim ocorreu com a TV em cores, o CD, o DVD, o celular, o computador pessoal ou a internet. Assim deverá ocorrer com a TV digital.
TUDO VAI BEM
Embora irritado com a ação governamental, não meu surpreendo com o atual estágio da TV digital brasileira. No começo é assim mesmo, com poucos programas de alta definição: uma novela, um ou outro jogo de futebol e programas de auditório de qualidade medíocre. Multiprogramação, interatividade, integração com a internet, portabilidade e mobilidade são recursos que ainda demoram anos para chegar.
Vou mais longe: nenhum país poderia fazer melhor, no mesmo período, nas mesmas condições. O grande problema do governo está em criar expectativas irrealistas e misturar um projeto desses com interesses pessoais e político-partidários.
E nos Estados Unidos? Lá, em 2007, após 9 anos de introdução da TV digital, só havia 30% de domicílios em condições de receber programas na nova tecnologia. O país só se mobilizou quando percebeu que a data da transição da TV analógica para a TV digital estava próxima e era intransferível: 17 de fevereiro de 2009. Daqui a 7 meses. Hoje, já são mais de 64%, segundo pesquisa da Associação Americana de Radiodifusores (NAB, na sigla em inglês).
E para as famílias mais pobres, o governo norte-americano oferece sintonizadores digitais inteiramente grátis, mediante a distribuição de cupons. Para os demais, subsidia a venda desses receptores, a US$ 40.
RÁDIO DIGITAL
Mais sério do que o problema da TV é o rádio digital. O ministro das Comunicações insiste em adotar no Brasil a tecnologia de HD Radio ou Iboc – que tem diversas limitações e que ainda não está plenamente desenvolvida. Nos Estados Unidos, depois de 6 anos, apenas 10% das emissoras aderiram ao padrão. O percentual de receptores digitais em uso é ainda menor: 4%.
E mais: o ministro Hélio Costa retoma a idéia de trazer para o Brasil a empresa americana Ibiquity, dona da tecnologia, apoiá-la com recursos do BNDES para que termine o desenvolvimento do padrão Iboc e passe exportar para a América Latina.
Imaginem o Brasil financiando uma empresa americana, com dinheiro púbico e correndo o risco do futuro de uma tecnologia problemática.
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