Berlim, 7 de setembro de 2009
por Ethevaldo Siqueira
No futuro, acionaremos nossos televisores apenas por meio de gestos de nossas mãos, em lugar de usar o controle remoto. Ou, se preferirmos, controlaremos as principais funções de nosso home theater simplesmente dizendo ao equipamento o que fazer, por meio do comando verbal. Da mesma forma, falaremos com o computador, com as portas, os armários, geladeiras e máquinas de lavar. Monitores e displays gigantes estarão disseminados na maioria das escolas e residências, para permitir o acesso interativo a bancos de dados e sistemas de informação. Na casa inteligente do futuro, a família guardará todos os filmes, músicas, livros eletrônicos, softwares ou games num servidor de mídia central (home media server), que exercerá o papel de um verdadeiro cérebro controlador das funções da residência, com capacidade para armazenar centenas de terabytes de conteúdo e que centralizará o comando de todas as funções e sistemas da casa digital. E (imaginem) a prioridade maior de todos os sistemas será a economia de energia e o combate ao aquecimento global. Graças ao desenvolvimento da IPTV (televisão sobre protocolo IP), a internet levará centenas de canais de TV a milhões de residências, com imagens da melhor qualidade.
Todas as tecnologias necessárias para a concretização de cada produto, função ou sistema mencionados acima já estão desenvolvidas. Nada disso é ficção, portanto. As previsões são apenas a extrapolação tecnológica que alguns especialistas fazem em suas palestras para os jornalistas que cobrem o evento ou às pessoas que visitam a IFA 2009, a maior feira de eletrônica da Europa, aqui em Berlim.
Esta feira, aliás, em sua estréia, há quase 80 anos, foi a primeira do mundo a demonstrar publicamente o funcionamento da televisão. Era 1930, 3 anos antes da implantação do nazismo por Adolf Hitler, e a maioria dos visitantes também não acreditava na possibilidade de a televisão vir a popularizar-se.
Para alguns especialistas do Instituto Fraunhofer e da indústria alemã, o desenvolvimento de toda a eletrônica de consumo e de entretenimento dos próximos anos terá dois centros motores (ou hubs, no jargão) em nossas residências: a TV e a internet.
FUTURO DA TV
Para Simon Kang, presidente da Divisão de Entretenimento Doméstico da coreana LG, “o televisor deverá tornar-se, por volta de 2014, o ponto focal de maior visibilidade da residência, com aspectos ultrassofisticados em sua evolução estilística. Mais importante do que isso será seu novo papel como centro dinâmico das chamadas redes de comunicações domésticas, que terão significativo impacto na elevação dos padrões e do estilo de vida”.
A TV exigirá grande ênfase na conectividade com os dispositivos e sistemas circundantes, tais como home theater, com base na tecnologia wireless (banda larga sem fio), que deverá ter papel fundamental na maioria das residências. Grande parte do conteúdo que as pessoas utilizarão em seu dia-a-dia será baixado da internet, de onde virão também os melhores programas de TV, a prestação de uma gama imensa de serviços de caráter colaborativo e proativo, estimulados pelas maiores empresas prestadoras de serviços nesse novo ambiente tecnológico.
Na visão de especialistas do Fraunhofer Institute for Open Communication System (Fokus, na sigla alemã), “a mídia do futuro será muito mais personalizada, com sólida base numa estrutura interativa”. Um exemplo dessa comunicação mais personalizada e interativa serão os sistemas visuais desenvolvidos pelo Instituto Fraunhofer, com monitores de grandes dimensões, sensíveis ao toque, interativos, que vão registrando os desejos e interesses particulares dos usuários, membros da família, projetando seus resultados na tela e, com sua permissão, transmitidos para os provedores de serviços.
Na seção de desenvolvimentos do Instituto Fraunhofer denominada TecWatch, está o projeto Ria IPTV, que utiliza o protocolo da internet e os browsers da web para levar às residências os serviços interativos à TV, aos smartphones e às telas de computadores.
Mais do que o impacto causado nos visitantes pelas imagens de alta definição, o que mais impressiona num evento como a IFA é a incrível variedade de aplicações, soluções e serviços que surgem do processo de convergência – sempre com ênfase no lado visual privilegiado das imagens de TV de alta definição, inclusive com recursos tridimensionais (3D), e no potencial de comunicação global da internet.
WEB 3.0 VEM AÍ
Mais do que os Estados Unidos e o Japão, a Europa tem sido ambiciosa em preparar-se para o futuro da internet naquilo, em especial no que se convencionou chamar de Internet 3.0 ou Internet das Coisas. Esta foi uma das discussões mais animadas entre especialistas de várias áreas nesta IFA 2009.
Por que Internet das Coisas? Porque, além de tudo que já faz, ela irá conectar objetos físicos. Seus documentos pessoais, como o talão de cheques, seu computador, seu automóvel, sua câmera de vídeo e tudo o mais que lhe interessar terá capacidade de comunicação e localização. A nova internet de terceira geração disporá de uma infraestrutura que abrangerá hardware, software e serviços, de modo tornar viável e operacional a nova rede capaz de conexão de objetos físicos.
Há cerca de um ano, a Comissão Europeia abriu consulta pública para estimular a discussão e implementação de soluções que tornem realidade, antes de qualquer outra região do mundo, a Internet das Coisas. Imagine, leitor, o impacto e a significação social e econômica da comunicação entre máquinas e objetos físicos.
Quase tudo está por ser desenvolvido e padronizado no âmbito dessa nova geração da web, mas a confiança e o otimismo dominam a maioria dos especialistas, quanto à viabilidade prática da Internet 3.0. Os objetos conectados terão impacto positivo tanto nos negócios como no processo de informação. Serão milhões de máquinas e objetos que trocarão informação automaticamente, dia e noite, dando sua própria identidade e suas características, propriedades físicas e químicas, e, obviamente tudo aquilo que pode afetar ao meio ambiente.